segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Guiné 61/74 - P18331: Notas de leitura (1042): História do Dia do Combatente Limiano”, por Mário Leitão (Mário Beja Santos)



1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 24 de Janeiro de 2018:

Queridos amigos,
Mário Leitão entra por vezes pela nossa sala de conversa adentro e conta-nos o que faz em Ponte de Lima, no dever de memória. Ciranda pelos estabelecimentos de ensino, faz convergência com instituições cívicas, lança os seus apelos nos jornais. Acha que os combatentes da I Guerra Mundial e das guerras de África ainda não receberam a merecida homenagem, ele estuda afincadamente os que tombaram e neste livro menciona-os com elevo e ternura. É um combate que nos comove e enquanto lia o seu livro lembrava o privilégio que me tinha sido dado de ir a Fafe falar a antigos combatentes de um livro que fora escrito para cinzelar o seu esforço e os seus sacrificos.

Um abraço do
Mário


Honra e glória ao combatente limiano

Beja Santos

Mário Leitão costuma vir conversar connosco, é com toda a justeza o mais denodado estudioso e promotor em Ponte de Lima do dever de memória, não se cansa de lembrar que durante 100 anos Ponte de Lima esqueceu-se dos seus filhos sacrificados na I Grande Guerra e pouco faz por recordar os mais de 50 limianos que tombaram em África, entre 1961 e 1974. Desse labor, e em edição sua, publicou em 2017 a “História do Dia do Combatente Limiano”, honrou-me com a oferta do seu trabalho.

É sobretudo um documento tocante de alguém que não desfalece e que anda pelas escolas, pelas associações cívicas e pelos jornais a batalhar pela sua causa, a nossa causa. Logo no prefácio o Coronel Luís Gonzaga Coutinho de Almeida explica o sentimento que os irmana, conta uma história:
“Um dia, a ouvir a lancinante dor de uma mãe por não poder fazer o luto do filho que morreu em combate no Ultramar, onde ficou sepultado, também a minha vida mudou no dia em que soube que um jovem da minha terra havia tombado pela Pátria, em 1917, na batalha de La Lys, e que jazia esquecido no cemitério francês de Richebourg L’Avoué, no Norte de França.
Nesse Verão, peguei no meu automóvel e percorri mais de 4 mil quilómetros à sua procura. Quando o encontrei (no Talhão A, Fila 10, Coval 13) pus-me em sentido à sua frente e benzi-me. Depois, baixei-me e abracei a sua lápide. Chorei e pedi-lhe desculpa, em nome de todos os habitantes da minha freguesia, por o termos esquecido durante 96 anos. E, quando à noite, voltei ao hotel a Lille, sentia-me outra pessoa, com o sentimento de um dever cumprido, mas essencialmente feliz e livre”.

Evocam-se partidas e sacrifícios, páginas de exaltação, como aquela situação de Júlio Dantas a propósito do embarque das tropas portuguesas da primeira expedição para Angola, no início da I Grande Guerra:
“Vi-os passar. Caminhavam quase nos braços do povo. Pequenos, robustos, tisnados do sol, curvados sobre as mochilas enormes, os trigueiros doirados das cabeças espreitando da sombra dos capacetes de feltro, as pernas curtas apertadas nas grevas, avançando, cinzentos, baços, compactos, como uma espessa coluna de poeira que tivesse aberto o caminho entre uma multidão – respirava neles, nas suas figuras desmanchadas, truncadas e alegres, aquela simples e ingénua bravura, aquele risonho e resignado heroísmo, que foi sempre, desde que os burgueses escuros e bárbaros dos primitivos concelhos se bateram em Navas de Tolosa, a caraterística fundamental da nossa raça”.

Há 6 corpos de limianos que ficaram na guerra, 5 em Moçambique e 1 na Guiné, que se transformaram num luto incompleto, nunca cumprido e permanentemente recordado. O mesmo, ou pior, se passa com os corpos de Celestino Sousa e Júlio Lemos, não recuperados de afogamentos ocorridos em rios guineenses. Isto escreveu Mário Leitão na sua coluna regular em Cardeal Saraiva, um dos jornais de Ponte de Lima. Ele vai descrever com detalhe toda a sua militância para que se comemore o dia do combatente limiano, lembra que Ponte de Lima foi o primeiro município a celebrar a memória dos seus filhos mortos ao serviço da Pátria em territórios ultramarinos, o que aconteceu em 1986. 10 anos depois foi colocado uma placa alusiva à homenagem de Ponte de Lima com o nome de todos os cidadãos do concelho mortos em missão militar. Investigações ulteriores revelaram mais nomes, o número ultrapassa os 50. Tem havido homenagens, mas, ao que ele nos revela, há em Ponte de Lima uma rivalidade sem quartel entre o CDS e o PSD, decretou-se temporariamente que esse dia do combatente não tem razão de ser, é suficiente o que se comemora sob a égide da Liga dos Combatentes.

É uma edição profusamente ilustrada, com textos alusivos e de várias proveniências. Numa dessas homenagens aparece o Coronel António Feijó a recolher a última Bandeira Nacional que esteve hasteada na Guiné até à hora da sua independência. Aqui fica o seu registo e um abraço ao Mário Leitão, um corredor de fundo que acompanhamos de perto.

A última bandeira nacional a ser hasteada na Guiné. Foi trazida pelo Coronel Bruno Pereira de Castro, conjuntamente com o clarim usado na cerimónia de transmissão da soberania para a República da Guiné-Bissau. Foram confiados ao Dr. Francisco Maia de Abreu de Lima para fins museológicos. Cobriu a urna do Coronel Pereira de Castro do dia do seu funeral
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Nota do editor

Último poste da série de 16 de fevereiro de 2018 > Guiné 61/74 - P18324: Notas de leitura (1041): Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba: O BNU da Guiné (22) (Mário Beja Santos)

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Guiné 61/74 - P18330: Agenda cultural (628): Apresentação do livro "Guiné-Bolama, História e Memórias", da autoria de Fernando Tabanez Ribeiro, dia 26 de Fevereiro de 2018, pelas 15 horas, no Salão Nobre do Palácio da Independência, Largo de São Domingos, 11 em Lisboa (António Estácio)



Sobre o autor:

FERNANDO TABANEZ RIBEIRO 
Nasceu em Coimbra a 11 de Junho de 1946. 
Viajou para a Guiné Portuguesa ainda na primeira infância, onde fez a escola primária e o antigo primeiro ciclo dos Liceus na modalidade de ensino particular, em Teixeira Pinto (Canchungo) e Bolama. 
Voltou à Metrópole para concluir o ensino secundário em Coimbra e seguidamente, o curso de Engenharia Química (1971) do Instituto Superior Técnico em Lisboa. 
Cumpriu o serviço militar na Armada entre 1971 e 1973, tendo sido mobilizado para a Guiné como oficial imediato de uma Lancha de Fiscalização Grande (LFG), navio patrulha das águas territoriais e dos principais rios da Província, durante a guerra colonial. 
O conhecimento da sociedade na Guiné e particularmente em Bolama, nestes dois períodos marcantes da sua vida, em criança e na fase adulta, analisado à luz da nossa histórica presença naquele território, está na origem deste livro. 
Regressado à Metrópole em 1973, desempenhou a sua actividade profissional na área da indústria alimentar como engenheiro, consultor e gestor, em Portugal e na R. P. Angola, encontrando-se hoje aposentado.

(Com a devida vénia a Âncora Editora
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Nota do editor

Último poste da série de 8 de fevereiro de 2018 > Guiné 61/74 - P18302: Agenda cultural (627): Foi inaugurado hoje, às 14h30, o Dino Parque da Lourinhã: mais de 400 milhões de anos de vida na terra, no maior museu ao ar livre do país... Mais de 120 réplicas de dinossauro em tamanho natural... Um projeto de ciência, educação e entretenimento, na Lourinhã, a "capital dos dinossauros"

Guiné 61/74 - P18329: Blogpoesia (553): "Sobressaltos...", "Libertação...", e "Poesia do calcanhar...", da autoria de J. L. Mendes Gomes, ex-Alf Mil da CCAÇ 728

1. Do nosso camarada Joaquim Luís Mendes Gomes (ex-Alf Mil da CCAÇ 728, Cachil, Catió e Bissau, 1964/66) três belíssimos poemas, da sua autoria, enviados entre outros, durante a semana, ao nosso blogue, que publicamos com prazer:


Sobressaltos…

Inesperados, surgem de repente.
Revoltam a vida.
Atordoam. Escurecem.
Fica-se suspenso.
Desaparece o futuro.
O passado ardeu.
Estilhaçou-se a esperança.
Quem havia de dizer!...
Logo a mim.
Sempre foi na casa dos outros.
Desta vez, fui eu.
Por mais rico e forte.
Todos sujeitos.
É bom reflectir antes que seja.
Seja o que for, é preciso acalmar.
Fiquemos de pé.
Com tempo, a ordem virá.
Montanha sem vale, não há.
O caminho é subir e descer.
Desistir é perder passado e futuro…

Berlim, 12 de Fevereiro de 2018
8h31m
Jlmg

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Libertação…

Corrigir o caminho que nos leva ao abismo,
Voltar para casa ileso dum assalto violento,
Sair da falência que nos pôs na miséria,
Vencer o tumor, sentença de morte,
Sem a ajuda da químio,
Abrir o carro com a chave perdida,
Encontrar a carteira com tudo lá dentro,
Regressar são duma guerra malvada,
Recuperar o romance inteirinho que o computador escondeu,
Acordar de manhã e poder trabalhar,
Apanhar o comboio que já estava a apitar,
Deixar de fumar e começar a viver,
Sair da prisão a meio da pena, voltar para lá,
Conseguir o perdão na hora da morte
Que não chegou a chegar,
É como morrer e voltar a nascer…

Berlim, 14 de Fevereiro de 2018
8h34m
Jlmg

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Poesia do calcanhar…

É servil e humilde por função.
Ali está. Suportando o corpo na vertical.
Um par. Gémeo. Missão igual.
Ponto de partida e chegada.
Elegante, na marcha.
Se eleva e avança.
Com equilíbrio, pisa e aguenta.
O outro se lança.
Vence a distância.
Aproxima o distante. Ufano, segue atrás a planta do pé.
Segundo plano.
Que importa?
O que interessa é chegar.
Cisne volante,
Corpo a dançar.
Sente o chão.
Detesta tacões.
Com engenho, arguto,
Se arma de calos, contra as pedras e espinhos da terra.
Se agarra à perna como a quilha dum barco.
Ora, prá frente, ora para trás.
Repousa à sombra, deitado de lado…

Ouvindo “fantasia” em fá menor, de Schubert em piano
Berlim, 15 de Fevereiro de 2018
7h39m
Jlmg
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Nota do editor

Último poste da série de 11 de fevereiro de 2018 > Guiné 61/74 - P18307: Blogpoesia (552): "Ao alcance da mão...", "Brandenburg", e "Saiu um vedor...", da autoria de J. L. Mendes Gomes, ex-Alf Mil da CCAÇ 728

Guiné 61/74 - P18328: O nosso blogue em números (51): atingimos a cifra dos 10,2 milhões de visualizações de página, com uma média díária de mais de 2,6 mil, nos últimos 30 dias (Jorge Araújo)


Infografia: Jorge Araújo (2018)é úme




Jorge Alves Araújo, ex-Fur Mil Op Esp/Ranger, CART 3494 
(Xime-Mansambo, 1972/1974): nosso colaborador permanente


1. Mensagem do nosso próximo editor Jorge Araújo,  com data de ontem, às 00:40

Assunto - O nosso blogue em números - 8 400 000 visualizações

Caro Luís,

Boa Noite.

Após o jantar, decidi assistir ao jogo de futebol desta noite entre o Clube Desportivo FEIRENSE e o PORTIMONENSE Sporting Clube, com o objectivo de me preparar para o diálogo/debate com os meus alunos do ISMAT (Portimão), alguns aficionados e, simultaneamente, pertencentes aos quadros técnicos da colectividade algarvia.

Concluído o jogo, passei pela «Tabanca» e constatei que estava próxima mais uma visualização redonda e histórica - a 8.400.000 (oito milhões e quatrocentos mil). Esperei o qb, pois poderia ter sorte de voltar a seu o feliz contemplado... e fui mesmo. E ela aí está, en anexo.

Depois do teu excelente trabalho estatístico, referente ao ano de 2017, apresentado/partilhado com todos os nossos leitores [vidé P18210 + P18199 + P18192 + P18190 ...] (*), eis o meu pequeno contributo para mais tarde recordarmos.

Bom fim-de-semana, com saúde e boa disposição.

Um abraço.
Jorge Araújo.




Evolução do nº de visualizações do nosso blogue de 19/1 a 17/2/2017: o máximo de visualizações de página foi de 7362 (em 21 de janeiro) e o mínimo foi 1368 (em 24 do mesmo mês).

Resumo estatístico do período (correspondente a 30 dias, de 19/1 a 17/2/2018)

Visualizações de páginas de hoje > 4 098

Visualizações de página de ontem > 3 035

Visualizações de páginas no último mês > 78 784
Média diária > 2 626

Histórico total de visualizações de páginas > 8 404 350 [a que deverá ser acrescido mais 1,8 milhões, de abril de 2004 a julho de 2010, período em que tínhamos um  outro contador sem ser o Blogger).

Seguidores > 609

Fonte: Blogger (2018)


2. Comentário do editor LG:

Jorge,  estás sempre no sítio certo e na hora certa, "just in time"... Tens que jogar no Euromilhões, porque és um sortudo... Obrigado pelo teu contributo, mais um, para o conhecimento da dinâmica do nosso blogue que, ao fim destes anos todos, ainda consegue despertar e a atenção o interesse de muitos amigos e camaradas da Guiné, mesmo daqueles mais cansados do percurso pela picada da vida...

Já agora, completo a tua infografia, com o resumo estatístico do período de 30 dias, que vai de 19/1 a até hoje. Estamos com uma notável média diária de mais de 2600 visualizações por página.

Além disso, publicámos 148 postes desde o início do ano de 2018: média diária, 3,1 postes. O número de comentários até hoje anda nos 700, o que perfaz uma média de 4,7 comentários por poste. 
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Nota do editor:


Vd. também postes de:




sábado, 17 de fevereiro de 2018

Guiné 61/74 - P18327: Os nossos seres, saberes e lazeres (253): Em Bruxelas, para comemorar 40 anos de uma amizade (3) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70) com data de 28 de Novembro de 2017:

Queridos amigos,
Era uma viagem de lembranças, um retorno com a distância de 40 anos, o objetivo primordial era abraçar amizades inquebrantáveis, rever os locais conhecidos em 1977, alargando a peregrinação a todos os espaços posteriormente conhecidos. Será o caso de Namur, como adiante se contará.
Hoje, o viandante anda de saco ajoujado com as compras feitas na Feira da Ladra, local mítico, sempre que alguém lhe entra em casa ele vai apresentando aguarelas, desenhos, estatuetas, esculturas, porcelanas e nunca se esquece de dizer: "Vieram da Place do Jeu de Balle". Há ali mesmo, no vestíbulo, um quadro imenso com uma esplêndida moldura de madeira entalhada que entrou num avião da TAP e terá seguramente deixado as piores recordações a uma hospedeira.
É muito bom ter Bruxelas em casa, naquele álbum fotográfico exótico de alguém que começou em Vilar Formoso, esteve em Fátima e em Lisboa, fotografou tudo, algures nos inícios da década de 1950, e há música mesmo, como a integral das sonatas para violino e piano de Beethoven por dois intérpretes lendários.
Afinal, também somos uma composição de lugares.

Um abraço do
Mário


Em Bruxelas, para comemorar 40 anos de uma amizade (3)

Beja Santos

A tendência natural para melhor tirar partido da viagem é ler um bom roteiro, conversar previamente com os autóctones, ver o traçado das artérias do local visado. Quase todos nós somos atraídos pelos bairros antigos. Quem vem a Lisboa procura Alfama, Madragoa ou Mouraria. No caso de Bruxelas é o bairro de Marolles, está bem perto do Palácio da Justiça, o primeiro itinerário que o viandante já badalou. Marolles é constituído por ruelas e ruas que estão cada vez mais sujeitas ao fenómeno da gentrificação, passou a ser chique renovar prédios e viver num ambiente interclassista. Marolles está pejado de comércio, avulta o das antiguidades e o bricabraque está na Praça do Jeu de Balle. Não se deve ir ao sábado ou ao domingo à Feira da Ladra, os preços duplicam. Aqui encontra-se tudo o que saiu dos sótãos e que resiste à insensibilidade dos herdeiros, que vendem a pataco os objetos mais íntimos dos seus ancestrais.


Do livro que o viandante sobraça diz-se acerca de Marolles: Coração da agitação proletária até ao início do século XX, depois dos desempregados, quando as fábricas abandonaram o território, tornou-se num lugar de passeio domingueiro, espaço cobiçado de renovação. Marolles viveu ao ritmo da miscigenação e das trocas. Os imigrantes (judeus da Europa de Leste, primeiro; em seguida, espanhóis, depois marroquinos) deram origem a fluxo de gente que seria enquadrada por instituições sociais e a uma vida associativa rica e densa. A Feira da Ladra é essencialmente hoje um local de comércio marroquino.





Era uma manhã de céu limpo, os feirantes munem-se de toldos, as bátegas da chuva às vezes contrariam as previsões meteorológicas. Para o viandante foi um dia de festa: uma edição luxuosa dos poemas de amor de Paul Éluard, poemas fac-similados, com desenhos de Picasso e Chagall, duas obras preciosas com iluminuras da Biblioteca Nacional de Paris e de livros persas, lenços, artefactos religiosos, loiça Wedgwood, e algo mais, a preços imbatíveis. Mas o viandante tem problema que vem ali para encantar os olhos. Há, contudo, aquele espetáculo de sofrimento dos álbuns de família, das caixas de costura, das bibliotecas que tinham uma orientação temática, os cd’s meticulosamente classificados, é um pouco como estar a mexer na vida íntima de cada um. É toda a azáfama da Praça do Jeu de Balle que fascina o viandante. Foi sempre assim e espera-se que seja sempre assim, até à última viagem.




Depois de se locupletar com uma adubada waterzooi, um género de sopa cremosa com nacos de galinha, viandante e companha avançam para Saint-Gilles, atravessam a Porta de Hal, o objetivo é o Museu Horta, um dos mais internacionais museus de Bruxelas, pois gente de todo o mundo vem aqui em peregrinação adorar a arquitetura Arte Nova de um dos seus mais consumados génios. Saint-Gilles e Ixelles possuem residência de sonho, mas são multiétnicos. Escreve-se na obra que acompanha o viandante: Com a imigração portuguesa, espanhola, grega, marroquina e africana, a população densificou-se e, na sua esteira, o número de lojas e cafés aumentou. Nestas comunas, dotadas de múltiplos bairros heterogéneos variando de uma rua para outra, formando micro-aldeias, estabeleceram-se desde o início artistas e intelectuais, a que se vieram juntar depois os eurocratas.



Escreve-se no roteiro do viandante: Erguidas entre 1898 e 1901, casa e ateliê respeitam o traçado do bairro e inscrevem-se no tecido urbano, reservando, nas traseiras, um ilhéu de jardins. Volumes, decoração e mobiliário compõem um mundo harmonioso no qual proporções, cores e aberturas das divisões banhadas de luz se integram perfeitamente, num jogo delicado e audacioso de materiais industriais (ferro e cerâmicas) e luxuosos (madeiras preciosas). O guia do museu apresenta-nos a relação dos trabalhos de horta na cidade, caso do Palácio das Belas Artes e da Maison du Peuple, esta destruída. São interiores primorosos, o viandante perde-se a ver puxadores, corrimãos, portas com vitrais, escadarias, tem a garganta seca com tanto esplendor de arte nova, sobe aos diferentes andares, está tudo irrepreensivelmente zelado. E sai dali em estado de consolo, nada de mais aprazível do que ver um espaço desta categoria irrepreensivelmente mantido.


Como é que é possível resistir à magnificência e ousadia desta porta Arte Nova? Entretanto anoitece, viandante e companha descansam os pés e deitam contas à vida: já se cirandou à volta do Palácio de Justiça, percorreu Marolles, Saint-Gilles e Ixelles, quer-se voltar a Marolles, passear no Sablon e Mont des Arts, conhecer as novidades nos bairros Léopold e Europeu, aquela zona da cidade em convulsão com a expansão das instituições europeias. Decide-se que a manhã seguinte é um salto até à natureza. Afinal de contas, a Bruxelas mais desconhecida dos viandantes fugazes é a dos parques. Vamos visitá-los, no esplendor do Outono.

(Continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 10 de fevereiro de 2018 > Guiné 61/74 - P18306: Os nossos seres, saberes e lazeres (252): Em Bruxelas, para comemorar 40 anos de uma amizade (2) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P18326: Álbum fotográfico de Virgílio Teixeira, ex-alf mil, SAM, CCS / BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69) - Parte XVIII: Visita, a Bissau, do presidente do Conselho de Ministros, prof Marcelo Caetano, em 14 e 15 de abril de 1969 (III)


Foto nº 21A

Foto nº 21


Foto nº 22


Foto nº 23


Foto nº 24


Foto nº 25


Foto nº 26


Foto nº 27


Foto nº 28A


Foto nº 28B


Foto nº 28



Foto nº 29

Foto nº 30

Foto nº 30A


Guiné > Bissau > 14 de abril de 1969 > Visita presidencial do Professor Marcelo Caetano a Bissau (III)

Fotos (e legendas): © Virgílio Teixeira (2018). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Continuação da publicação do álbum fotográfico do nosso camarada Virgílio Teixeira, ex-alf mil, SAM, CCS / BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69), e que vive em Vila do Conde, sendo economista, reformado. (*)

 Última parte da reportagem fotográfica da visita do prof Marcelo Caetano, a Bissau, em 14 de abril de 1969, no âmbito de um périplo pelo Ultramar português, em guerra (Angola, Moçambique e Guiné). No dia seguinte, 15, partiu para Luanda.


Tendo viajado em avião da TAP,  desembarcou em Bissalanca, onde era aguardado por uma enorme multidão, e pelas autoridades militares e civis fa províncica. O com-.chefe e o governador geral da província era então o general António Spínola, já com um ano de Guiné (desde 20 de maio de 1968).

Depois das boas.vindas e recepção protocolar ao ilustre visitante, a comitiva percorreu de automóvel o percurso entre o aeroporto e a cidade de Bissau, uns 10 quilómetros aproximadamente, sendo visível ao longo de todo o percurso nas bermas da estrada um grande número de guineenses, apoiando com bandeiras e outros adornos e roncos o "homem grande" de Lisboa.

Pelo que pude observar, a população recebeu bem Marcelo Caetano. Não estive em todo o lado porque não era possível, dadas as dificuldades de passar barreiras que eram enormes, mas ainda assim pude fotografar Marcelo Caetano no carro nas Avenidas de Bissau.

Em, 14-02-2018

Virgílio Teixeira

«Propriedade, Autoria, Reserva de Direitos, de Virgílio Teixeira, Ex-alferes Miliciano SAM – Chefe do Conselho Administrativo do BATCAÇ1933/RI15/Tomar, Guiné 67/69, Nova Lamego, Bissau e São Domingos, de 21SET67 a 04AGO69».


2. Nota do editor LG:

Na RTP Arquivos pode-se ver uma interessante reportagem, de cerca de 30 minutos, sobre a visita oficial de Marcelo Caetano a Bissau, em 14 e 15 de abril de 1969. Clicar aqui.

O então recente presidente do conselho de ministros Marcelo Caetabo (1906-1980)  (, em funções desde 26 de setembro de 1968, substituindo Salazar) foi acompanhado pela filha e pelo  ministro do ultramar, Silva Cunha, nesta sua visita à capital da Guiné.

Veio em carro descapotável de Bissalanca até ao palácio do Governador, mas em grande velocidade. No palácio, é saudado por Spínola, e por uma representação de homens grandes (, régulos). Caetano tinha estado na Guiné em 1936... Cá fora, o ambiente é de festa popular, com vários grupos de músicos e dansarinos. Depois de também  discursar, e da sessão de cumprimentos,  a comitiva  dirige-se ao cemitério de Bissau, onde Marcelo Caetano presta homenagem aos militares portugueses mortos na guerra. De regresso, e caminho do estádio de futebol Sarmento Rodrigues, Marecelo Caetano mistura-se, com à vontade,  com a multidão... Desce várias vezes da viatura. E aqui é acompanhado por Spínola.


Resumo analítico da reportagem. emitida em 24 de abril de 1969 (Fonte:  RTP Arquivos, com a devida vénia)

(i) Marcelo Caetano chega ao Aeroporto de Lisboa, acompanhado por sua filha Ana Maria e despede-se de entidades e membros do Governo;

(ii)  população aplaude; parada militar; Marcelo Caetano entra no Boeing 727-100, "Ilha da Madeira" da TAP; avião a descolar. 

(iii) 05m28: Aeroporto de Bissalanca: populares aguardam a chegada do Presidente do Conselho de Ministros, exibindo cartazes com a sua fotografia, faixas e bandeira portuguesa; desfile militar; parada militar com avião a aterrar ao fundo; Marcelo Caetano desembarca e cumprimenta General António de Spínola, Governador e Comandante-Chefe das Forças Armadas da Guiné; fanfarra militar toca o hino nacional; Marcelo Caetano, Joaquim Silva Cunha (Ministro do Ultramar) e César Moreira Baptista (Secretário de Estado da Informação e Turismo) escutam o hino em sentido; militares em parada militar; Marcelo Caetano, General António de Spínola e General Venâncio Augusto Deslandes, Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, passam revista às tropas; desfile militar com fanfarra; Presidente do Conselho de Ministros cumprimenta a população e entra no automóvel. 

(iv) 08m31: Bissau: pessoas à beira da estrada saúdam Marcelo Caetano à passagem da comitiva, com faixas, cânticos e danças; num gabinete do Palácio do Governo, Marcelo Caetano cumprimenta oficiais dos três ramos das Forças Armadas.

(v) 10m42: Presidente do Conselho entra no Salão Nobre onde se realiza uma sessão extraordinária do Conselho Legislativo da Província; à direita de Marcelo Caetano, Joaquim Silva Cunha e à esquerda o General António de Spínola; discurso de Joaquim Baticã Ferreira, vogal do Conselho Legislativo (sem som); César Moreira Baptista e Venâncio Augusto Deslandes assistem à reunião; discurso do Governador-Geral da Guiné agradecendo a visita oficial de Marcelo Caetano ao Ultramar; assistência aplaude. 

(vi) 13m00: Marcelo Caetano discursa sobre a última visita à Guiné, as medidas tomadas enquanto Ministro do Ultramar para o desenvolvimento da província, a paz como condição essencial para o progresso do território e o reforço das forças de segurança da Guiné; entidades presentes aplaudem e cumprimentam o Presidente do Conselho de Ministros.

(vii)  21m01: Praça do Império com multidão a aplaudir e a dar vivas; Marcelo Caetano acena da varanda; no interior do palácio, o Presidente do Conselho de Ministro entrega lembranças a individualidades nativas; no exterior a população dança, canta e toca instrumentos musicais; Marcelo Caetano acena à população a partir do automóvel. 

(viii) 23m20: Marcelo Caetano chega ao Cemitério de Bissau acompanhado por Joaquim Silva Cunha, César Moreira Baptista e Venâncio Augusto Deslandes; passam entre alas da Mocidade Portuguesa; junto de campas prestam homenagem aos soldados que morreram pela Pátria em território guineense; soldado entrega coroa de flores a Marcelo Caetano, que as deposita junto do monumento; fachada da Catedral de Bissau; população cerca o Presidente do Conselho à saída da Catedral; no automóvel Marcelo Caetano acena à população que grita "Viva Portugal". 

(ix) 27m31: Marcelo Caetano e comitiva entram no Comando-Chefe das Forças Armadas; sentinela; carro do Governo percorre as ruas de Bissau com pessoas a assistir; chegada ao Aeroporto de Bissalanca; Marcelo Caetano, acompanhado por Joaquim Silva Cunha e General António de Spínola, despede-se da população que aplaude; guarda de honra em parada militar; banda toca Hino Nacional; Marcelo Caetano despede-se do General António de Spínola e embarca no avião [, rumo a Luanda,] acenando à população.

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Nota do editor:

(*) Vd. postes anteriores da série >

15 de fevereiro de 2018 > Guiné 61/74 - P18320: Álbum fotográfico de Virgílio Teixeira, ex-alf mil, SAM, CCS / BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69) - Parte XVI: Visita, a Bissau, do presidente do Conselho de Ministros, prof Marcelo Caetano, em 24 de abril de 1969 (I)

16 de fevereiro de  2018 > Guiné 61/74 - P18323: Álbum fotográfico de Virgílio Teixeira, ex-alf mil, SAM, CCS / BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69) - Parte XVII: Visita, a Bissau, do presidente do Conselho de Ministros, prof Marcelo Caetano, em 24 de abril de 1969 (II)

Guiné 61/74 - P18325: Parabéns a você (1391): António Carvalho, ex-Fur Mil Enf.º da CART 6250 (Guiné, 1972/74) e Fernando Chapouto, ex-Fur Mil Op Esp da CCAÇ 1426 (Guiné, 1965/67)


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Nota do editor

Último poste da série de 16 de Fevereiro de 2018 > Guiné 61/74 - P18322: Parabéns a você (1390): António Eduardo Carvalho, ex-Cap Mil Inf das CCAÇ 3 e CCAÇ 19 (Guiné, 1974) e José Maria Pinela, ex-1.º Cabo TRMS do BCAV 3846 (Guiné, 1971/73)

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Guiné 61/74 - P18324: Notas de leitura (1041): Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba: O BNU da Guiné (22) (Mário Beja Santos)



1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 17 de Outubro de 2017:

Queridos amigos,
O gerente Virgolino Teixeira merece as honras de ver a sua exposição classificada como "Absolutamente Confidencial" e dirigida ao presidente do conselho administrativo, em Lisboa com todo o destaque, com o máximo de pormenor. Doravante, nenhum estudioso deste período da história da Guiné pode passar à margem do que ele aqui escreve: denuncia a corrupção e imoralidade do governador e do seu círculo; denuncia a infamante exploração dos Balantas, que ele classifica como os indígenas mais laboriosos, denuncia os serviços públicos, num estado de bandalheira, classifica de completo embuste o que se diz sobre a pacificação dos Bijagós. E ainda temos mais pela frente, a denúncia é extensa, nenhum setor de atividade lhe escapa.

Um abraço do
Mário


Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba: O BNU da Guiné (22)

Beja Santos

Continua-se a dar espaço ao documento intitulado “Absolutamente Confidencial” que o gerente do BNU em Bissau enviou em 10 de Outubro de 1938 para o Presidente do Conselho Administrativo, em Lisboa. Nada, absolutamente nada, de toda a documentação consultada no Arquivo Histórico do BNU tem carga tão explosiva como este documento, não sei se existe um libelo acusatório tão devastador sobre a governação de Carvalho Viegas como este. O gerente não podia mentir nem manifestar ressentimentos seria o seu funeral profissional. E da leitura do vasto documento também se pode inferir que ele sabia da poda, dos nomes implicados, políticas, organização de serviços, como se vai ver adiante.

“Bissau progride. O senhor governador Viegas faz tudo o que pode, à socapa, para demorar a capital em Bolama visto Bissau ter altivez para não lhe prestar vassalagem às suas indignidades e porque a amante – telegrafista do Estado – quer estar em Bolama. Para despistar, mandam-se algumas repartições de Bolama para Bissau, mas sem se curar de haver ou não haver alojamento para o pessoal. Há chefes de serviços que vivem casas-pocilgas. O senhor governador vai a Lisboa, e manda que a amante o aguarde ao serviço em Bissau. Gastam-se seis contos numa moradia dentro da própria repartição dos correios e lá se instala a ‘dama’ que entra a impor a sua qualidade de ‘governadora’.
Bissau tem altivez e não aceita tais afrontas. A dama sente-se mal só com a subordinação total dos funcionários pequenos e de um ou dois chefes de serviço. Quer a subordinação geral. Não a tem e o senhor governador Viegas manda que seja transferida de novo para Bolama. Mas manda em cartas para diversos íntimos, pois o Encarregado de Governo é tão alta pessoa moral que ele nem se atreve a tocar-lhe em tal miséria. Manda então a amante pedir-me que seja eu porta-voz dos seus desejos junto do Encarregado de Governo. Finjo que não ouvi nada. Tudo é público, tudo é vergonhoso. Sob o aspeto moral, haveria mais. Nunca se acabaria. Mas o que está escrito chega”.

Segue-se um conjunto de observações sobre a economia guineense. É extremamente útil ouvi-lo.

“A riqueza da colónia provém da sua agricultura. Esta, por falta de braços, por negação do indígena e por falta de educação deste para efeitos de trabalho, não pode ser feita por particulares, sós ou constituídos em empresas. Como indústria ligada à agricultura, há apenas a de fabrico de aguardente de cana. Mas não é de cana, é de caju, é de açúcar importado, é de farelo de arroz, e de tudo o que fermente e destile, mesmo que os tubos de destilação matem o indígena. É pois a agricultura da colónia unicamente feita pelo indígena, a seu bel-prazer. E no capítulo do trabalho está na primeira linha o Balanta que é, na verdade, trabalhador incansável.
A economia da colónia depende em grande parte do labor do Balanta. Consequentemente, devia ser esta a raça mais acarinhada, mas ensinado não só nas lavouras atuais como na introdução de lavouras novas e processos mais racionais. Mas não. O Balanta apenas merece um carinho especial o de se lhe tirar, a bem ou a mal, todo o produto ou todo o dinheiro que tenha. O imposto de palhota é X. Mas o Balanta não paga por palhota. Paga por quantas divisões a palhota tiver. Alguns arroladores até querem considerar ‘quarto taxado’ o curral onde o porco dorme ou o quadrado do quintal onde semeia a mandioca. As autoridades venais têm no Balanta a sua fonte de receita… privada. Roubam-nos de todo o modo. Chega a parecer mentira como o Balanta, em certas zonas, ainda trabalha e ainda não fugiu! A região de Tombali era coisa sem valia ainda há anos. Chegou lá o Balanta que afastou mais o Nalu para o Norte. Das bolanhas tirou arroz por milhares de contos. As autoridades viram mina e os Balantas pagaram muito imposto. E veio a rede dos concessionários de terras. E algumas autoridades ligaram-se a eles, intimamente, secretamente. E tudo junto tem espoliado, tem roubado, a bem ou a mal, o pobre Balanta. Como lenitivo, mandam-lhe, o mais caro possível, a aguardente de tudo e até com cores, mesmo da destilada por tubos de chumbo. Sabe lá alguém, naquelas regiões, porque morreram os Balantas…! Que vale a vida dos Balantas nesta terra onde nada vale desde que tenha valor? É assim mesmo que se trata o maior valor económico da colónia, o pobre Balanta”.

E depois desta catilinária, chama à atenção para o setor exportador descurado:
“A colónia podia exportar contos e contos de cera e mel, riqueza permanente de laboração quase gratuita pois se limitaria à aquisição de colmeias racionais que acabariam por ser feitas na colónia, copiadas dos melhores modelos. Absolutamente nada se faz neste capítulo. A cera que se exporta, porque mel se não exporta, é colhido das colmeias naturais que as abelhas fazem nos buracos das árvores, mas na colheita ou se destrói o enxame ou o enxame e árvore, conjuntamente, porque o indígena, para mais comodidade, larga fogo à árvore para afugentar o enxame e para que a árvore caia ao chão, evitando-lhe portanto os perigos e massadas de ter que trepar”.


Inevitavelmente, o tema dos transportes vem à baila:

“O volume enorme dos transportes, na Guiné, é feito pelos rios e canais que a retalham. No entanto, o tráfego pelas estradas é importantíssimo, do interior para o porto de Bissau, a cidade mais comercial e, na verdade, a verdadeira capital da colónia. Centenas de automóveis e camiões afluem à passagem forçada, por ser a única, no canal do Impernal, que liga o continente à ilha de Bissau. Para tal passagem à apenas uma pré-histórica jangada que em dias de festa pode transportar dois automóveis – não sem perigo – ou uma camioneta pouco carregada.
Centenas de metros abaixo desta passagem há um princípio de construção de uma ponte metálica onde se gastaram milhares de contos que hoje estão perdidos por se ter abandonado a obra.
Mais centenas de metros acima, há um estreitamento de um canal cuja margem do lado de Bissau forma um banco de lodo com sete ou oito metros de fundo e cuja margem do lado do continente tem pouca lama e terra firme. Já está autorizada a verba para a construção da ponte, utilíssima para a vida económica da colónia. Somente as obras públicas da colónia são absolutamente incompetentes para fazer a ponte. E o tempo passa, as formalidades legais farão sumir a verba e a ponte ficará para as calendas gregas. E a economia da colónia continuará sofrendo.

Como despesa inútil que afoga, sem recuperação, umas centenas de contos, as célebres oficinas navais de Bolama ferem duramente a moralidade económica da colónia. Não fazem quase nada de bom. Estragam materiais em reparações que nada duram, se é que não destroem mais o que é reparado. É exemplo frisante o vergonhosos estado em que se encontram os vaporinhos do governo que já levam seis e sete horas a ir de Bolama a Bissau com perigo iminente para a vida de quem neles anda. E tudo isto porquê, porque o senhor governador Viegas se serve das oficinas navais para fazer guerra à indústria particular da Sociedade Industrial Ultramarina, sem se importar com honestidade na governação nem na economia da colónia.

E os observatórios oceanográficos e meteorológicos? Onde estão? O que fazem? Nada, mesmo nada. Apenas se sabe que há observadores a ganhar e despesas a correr. Mas se dos elementos desses serviços se quer saber a que horas é a maré alta ou baixa ou de que banda está o vento tem que se perguntar a um Manjaco o que há de marés e tem que se deitar um papel ao ar, para ver que rumo leva. E sobre o rebocador novo, que custou uns milhares de contos? Ainda está a fazer. Quando cá chegar, pouco ou nada se fará com ele mas há anos e anos que da economia da colónia saem contos para pagar ao seu comandante que leva os dias e os anos encostado às janelas da capitania, sem ter nada, mesmo nada, que fazer.
E uma oficina dos serviços de transportes terrestres que custa à economia da colónia 292 contos? O que ali se estafa em material! Carro que lá entra, ou fica pior ou morre de vez. Existem também para servirem de arma, na mão do senhor governador Viegas, contra a indústria particular. Mas, mais alto, bem mais alto do que tudo isto, estão as “granjas do Estado”.
Somam-se por milhares e milhares os contos que nelas se têm enterrado sem nenhuns, absolutamente nenhuns, resultados práticos. Dessa formidável sucção na economia da colónia não resulta a venda de um cento de laranjas. E como ensinamento aos indígenas, não me parece que possa sair mais que alguma data de pancada em algum que se atreva a ir lá ver como estão as couves… do pessoal das granjas. Se isto é mesmo assim, porque não se há de dizer tal qual como é.

Nas obras públicas então vai um pavor. O engenheiro chefe Afonso de Castilho faz medo, de tão incompetente inútil que é. Nas obras em curso, rouba-se a torto e a direito. Nos fornecimentos de material há ligações desonestíssimas, como a casa Ed. Guedes Lda.
Os empreiteiros roubam descaradamente. As obras cujo custo anda por uns 100 contos pagam-se por 400 ou 500. Um verdadeiro horror.
Da capitania dos portos, mais desperdícios de dinheiro. Os barcos das carreiras andam sujam em demasia. Pudera, contos e contos de tintas vão para a casa particular do capitão do porto a cujo serviço particular estão os remadores todos, que custam caro. É por isso que para um indígena ser admitido como remador precisa de saber cozinhar, saber engraxar, saber lavar roupa, saber encerar. Enfim, tem que saber alguma coisa desde que não seja remar…"


(Continua)
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Notas do editor

Poste anterior de 9 de fevereiro de 2018 > Guiné 61/74 - P18304: Notas de leitura (1039): Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba: O BNU da Guiné (21) (Mário Beja Santos)

Último poste da série de 12 de fevereiro de 2018 > Guiné 61/74 - P18311: Notas de leitura (1040): “Modelo Político Unificador, Novo Paradigma de Governação na Guiné-Bissau”, por Livonildo Francisco Mendes; Chiado Editora, 2015 (4) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P18323: Álbum fotográfico de Virgílio Teixeira, ex-alf mil, SAM, CCS / BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69) - Parte XVII: Visita, a Bissau, do presidente do Conselho de Ministros, prof Marcelo Caetano, em 14 e 15 de abril de 1969 (II)


Foto nº 10A


Foto nº 10B


Foto nº 10



Foto nº 11 A


Foto nº 11

Foto nº 12


Foto nº 12A


Foto nº 13


Foto nº 14


Foto nº 14A


Foto nº 15


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Foto nº 16


Foto nº 16A



Foto nº  17A


Foto nº 17


Foto nº 18A


Foto nº  18


Foto nº 19 A


Foto nº 19

Foto nº 20A


Foto nº 20

Guiné > Bissau > 24 de abril de 1969 > Visita presidencial do Professor Marcelo Caetano a Bissau (II)

Fotos (e legendas): © Virgílio Teixeira (2018). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


V
Virgílio Teixeira, foto atual

1. Continuação da publicação do álbum fotográfico do nosso camarada Virgílio Teixeira, ex-alf mil, SAM, CCS / BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69), e que vive em Vila do Conde, sendo economista, reformado. (*)

Anotações e Introdução ao tema > Fotos numeradas de 1 a 30 (Parte I, fotos de 10 a 20, renumeradas pelo editor, seguindo um critério cronológico, procurando mais ou menos reconstituir o trajeto do percurso, do aeroporto de Bissalanca até à Praça do Império).

 Marcelo Caetano viajou de avião da TAP,  num Boeing 727-100, tendo chegado a Bissalanca, a 14 de abril de 1969, no início de um périplo pelo ultramar português (Guiné, Angola e Moçambique), com regresso a 21. Em Bissalanca  era aguardado uma enorme multidão da população,  além das autoridades militares e civis. O Com-.chefe e o governador geral da província era então o general António Spínola,  já com um ano de Guiné.

Feita a recepção, a comitiva percorreu de automóvel o percurso entre o aeroporto e a cidade de Bissau, uns 10 quilómetros aproximadamente, sendo visível ao longo de todo o percurso nas bermas da estrada um grande número de guineenses,  apoiando com bandeiras e outros adornos e roncos o  "homem grande" de Lisboa.

Pelo que pude observar, a população recebeu bem Marcelo Caetano. Não estive em todo o lado porque não era possível, dadas as dificuldades de passar barreiras que eram enormes, mas ainda assim pude fotografar Marcelo Caetano no carro nas Avenidas de Bissau. (...)

 Em, 14-02-2018

Virgílio Teixeira

«Propriedade, Autoria, Reserva de Direitos, de Virgílio Teixeira, Ex-alferes Miliciano SAM – Chefe do Conselho Administrativo do BATCAÇ1933/RI15/Tomar, Guiné 67/69, Nova Lamego, Bissau e São Domingos, de 21SET67 a 04AGO69».

[Continua]
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Nota do editor: