quinta-feira, 20 de julho de 2017

Guiné 61/74 - P17607: O nosso blogue como fonte de informação e conhecimento (45): Instruções para indicação de pontos na carta de 1/50.000 (Nuno Rubim, cor art ref, historiador militar)


Guiné > Carta do Xime (escala 1/50 mil) (1961)... Com os 9 quadrantes numerados, de acordo com o esquema B... Clicar aqui para ver em formato grande.

Esquema  A

Esquema B 





1. Mensagem de Nuno Rubim, com data de hoje, às 3h42, em complemento do pedido no poste anterior (*)

Caro Luis

Talvez isto ajude.
Material recolhido no A.H.M. [Arquivo Histórico Militar]

A minha única dúvida reporta-se a qual dos dois esquema, A ou B, era o utilizado.
Abraço

Nuno Rubim

2. Comentário do editor LG:

Nuno:
Obrigado, fez-se luz!.. As tuas instruções são preciosas... Posso confirmar, pela minha experiência operacional (CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71),  relatórios de operações e leitura das cartas, nomeadamente do setor L1, que o esquema que se aplica é o B: de cima para baixo e da esquerda para a direita: 3/2/1 | 6/5/4 | 9/8/7....
Aqui vão algumas localizações:

Vd. carta do Xime (1 /50 mil)

(i) proximidades da ponte do Rio Jago (estrada Mansambo-Xitole): Xime 8A 5-36;
(ii) acampamento IN em Baio/Buruntoni: Xime 2D-81;
(iii) duas tabancas civis sob controlo IN entre a Foz do Rio Corubal e Ponta do Inglês: Xime 3A 2-46 e Xime 3A 4-11.

Mas também experimentei com outras cartas, em regiões onde fizemos operações: por exemplo, Namboncó, a norte do Rio Geba:

(iv) acampamento IN na região de Belel, oito moranças com colmo e 7 de adobe: NAMBONCO  7I4-97;
(v) fuga do IN na direção de NAMBOCÓ 8G6-32.

Também encontrei a referenciação mais detalhada, acima referida, com graus e minutos, por exemplo, no relatório da Op Lança Afiada, comandada pelo cor inf Hélio Felgas (iniciada em 8 de março de 1969, com a duração de 11 dias, envolvendo mais de 1300 militares e carregadores, que bateram toda a margem direita do Rio Corubal, ao tempo do BCAÇ 2852, Bambadinca, 1968/70)... Por exemplo, algumas localizações de posições IN (ao longo da margem direita do Rio Corubal, que corresponde à carta do XIME):

(vi) Gã Garnes (Ponta do Inglês) (subsetor do Xime): 1500 1150 B5-5; 
(vii) Fiofioli (subsetor do Xime): 1500 1145 E4 ou D5;
(viii) Galo Corubal (subsetor do Xitole): 1455 1145 B5 ou D5.

Salvaguarda-se alguma eventual gralha datilográfica...

Espero ter ajudado. Um alfabravo. Luís

PS - O Nuno Rubim tem uma documentação, em suporte digital e em papel, absolutamente fabulosa sobre o TO da Guiné, onde fez duas comissões, no princípio e no fim da guerra (no QG)... Na primeira comissão comandou duas das unidades que passaram por Guileje: a CCAÇ 726 (out 1964/jul 1966) e a CCAÇ 1424 (jan 1966/dez 1966)...

O Nuno Rubim, hoje cor art ref, é um dos membros mais antigos do nosso blogue. Chegou até nós, no último trimestre de 2005, pela mão do nosso querido coeditor Virgínio Briote. Estiveram ambos nos comandos, na Guiné, em 1966, sendo na altura comandante da CCmds da Guiné o Nuno Rubim.

É um dos nossos camaradas que mais sabe da história militar da guerra colonial na Guiné (1963/74) e é um reputado especialista em história da artilharia portuguesa.  Terá mais de 90 GB de informação sobre o CTIG em geral e a região de Tombali, em particular. É um profundo conhecedor do Arquivo Histórico Militar.

Deus, Alá e os bons irãs te protejam, Nuno!
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Guiné 61/74 - P17606: O nosso blogue como fonte de informação e conhecimento (44): Como se localizava, por exemplo, na Carta de Cacine 1:50.000, a posição CACINE 6 D4/78 ? (José Nico / Miguel Pessoa / António J. Pereira da Costa)



Guiné > Região de Tomvali > Carta de Cacine (1960) > Escala 1/50 mil > Pormenor: quadrante 7 (e não o 9)...


Infogravura:  Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2017)





1 Mensagem do Miguel Pessoa, ex-ten pilav, FAP, BA 12, Bissalanca, 1972/74, cor pilav ref, com data de 10 do corrente

Caros editores

O General José Nico já colaborou anteriormente com a Tabanca Grande publicando no blogue textos sobre a actuação da FAP na Guiné. Pede-me agora colaboração no sentido de esclarecer o sistema de identificação de pontos nas cartas 1/50.000 que utilizávamos na Guiné.

O facto é que os 45 anos já passados não me ajudam a reavivar a memória sobre este assunto mas, dispondo o blogue de uma alargada e diversificada panóplia de leitores, pode ser que entre eles exista alguém com a memória mais fresca que possa dar a sua colaboração sobre esta matéria. Por isso aqui fica o pedido.

Abraço.
Miguel
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Texto do ten gen ref José [Francisco Fernando] Nico :
José Nico, ten pilav, CTIG, 1968

"(...) Trata-se do método que utilizávamos na marcação de pontos na carta 1:50.000 da Guiné. Tenho tido dificuldades em marcar os pontos que encontro nos SITREPs porque já não me lembro completamente do método que usávamos. Ando lá perto mas não tenho a certeza de nada.

Aqui vão uma série de pontos retirados dos SITREPs para exemplo:

CACINE 6 D4/78

CACINE 3 I0/57

GUILEGE 8 H1/59

GUILEGE 8 H6/63

Talvez na Tabanca Grande haja alguém que ainda se lembre deste sistema de referenciação e do que representava cada um dos algarismos ou letras. Por exemplo, estou convencido que o primeiro número a seguir à designação da carta (Por ex. CACINE 6) representa um dos nove quadrados em que a carta está dividida e que esses quadrados são contados de baixo para cima e da esquerda para a direita. Assim o quadrado 6 é o do meio no topo da carta. E o resto como é? É também de baixo para cima e da esquerda para a direita?

Por exemplo, o D no quadrado 6 encontra-se dividindo o quadrado 6 em nove quadrados iguais em que o que fica no canto esquerdo em baixo é o quadrado A. Acima deste fica o B e assim por diante. Se estou certo o quadrado D seria o que fica logo à direita do A.

E o resto como é?

É esta dúvida que te peço que vejas se consegues aclarar e até pode ser que tu te lembres ainda disto.

Abraço
J. Nico"


2. Mensagem que o nosso editor enviou, no mesmo dia, a três dezenas de membros da nossa Tabanca Grande que foram comandantes operacionais no TO da Guiné (capitães ou alferes):


Camaradas: lembrei-me de alguns de vocês que foram comandantes operacionais, infantes, fuzileiros, cavaleiros e artilheiros (mas também de outras armas e especialidades: transmissões, operações e informações, habituados a usar, no mato, em colunas logísticas ou no quartel as cartas 1/50.000 da Guiné... 

Eu sei que lá vão mais de 50 anos... mas nesta pequena amostra de grã-tabanqueiros, espero haja alguém ainda capaz de saber responder às dúvidas dos nossos camaradas da FAP, Miguel Pessoa e José Nico... Também gostava de saber para poder interpretar melhor os nossos relatórios...

Com um alfabravo,
Luís Graça

PS - As cartas 1/50.000 estão disponíveis "on line" (procurar na coluna do lado esquerdo do nosso blogue)


3. Resposta do António J. Pereira da Costa,  cor art ref , ex-alf art CART 1692/BART 1914, Cacine, 1968/69; ex-cap art e cmdt das CART 3494/BART 3873, Xime e Mansambo, e CART 3567, Mansabá, 1972/74),


Olá Camaradas

As NEP do ComChefe - que existem em depósito na DHCM - esclarecem melhor este tema.

A palavra indica o nome da folha que, normalmente está relacionado com o da povoação mais importante contida na folha.

Recordo-me de um, a título de exemplo, - MAMBONCÓ - que era uma povoação a Sul de Mansabá e que, no nosso tempo, estava abandonada. Era a aldeia dos macacos. 

Depois eram "aproveitados" os nove quadrados em que a folha estava dividida. Daí o CACINE 6. 

Tenho ideia de que os quadrados eram numerados como quem lê. 

Depois era aplicada um mica graduada onde era feita a leitura pelo sistema Abcissa/Ordenada (`à Descartes').

Creio que teoricamente era possível localizarmo-nos a menos de 50 metros.

Os fuzileiros eram muito eficazes neste sistema, sendo o imediato da força o responsável pelo fornecimento das coordenadas em caso de pedido de apoio.

Um Ab.
António J. P. C
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Guiné 61/74 - P17605: Pré-publicação: O livro de Mário Vicente [Mário Fitas], "Do Alentejo à Guiné: putos, gandulos e guerra" (2.ª versão, 2010, 99 pp.) - XXIII Parte: Cap XIV - Regresso à guerra, depois de um mês no HM 241...Lembranças do "amor de perdição", a Maria do Céu, MiMê, a jovem de Lamego, que esteve quase a transformar o "ranger" em desertor...



Guiné > Região de Tombali > Cufar > CCAÇ 763 (1965/67) >  Tânia (*), Maria do Céu (**), Miriam (***)... algumas das mulheres do "Calças de Palanco", aliás, "Vagabundo", aliás  "Ranger", aliás "Mamadu"... Umas cuidavam das feridas do corpo, outras as das feridas da alma...


Foto: © Mário Fitas (2016). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Capa do livro (inédito) "Do Alentejo à Guiné: putos, gandulos e guerra", da autoria de Mário Vicente [Fitas Ralhete], mais conhecido por Mário Fitas, ex-fur mil inf op esp, CCAÇ 763, "Os Lassas", Cufar, 1965/67. Do mesmo autor já aqui publicámos, em 2008, em dez postes, o seu fascinante livro "Pami N Dondo, a guerrilheira", ed. de autor, Estoril, 2005, 112 pp. (****)



Mário Fitas foi cofundador e é "homem grande" da Magnífica Tabanca da Linha, escritor, artesão, artista, além de nosso grã-tabanqueiro da primeira hora, alentejano de Vila Fernando, concelho de Elvas, reformado da TAP, pai de duas filhas e avô. Foto em baixo, à direita, Tabanca da Linha, Oitavos, Guincho, Cascais, março de 2016]



Do Alentejo à Guiné: putos, gandulos e guerra > XXIII Parte > Cap XIV  (pp. 81-83)

por Mário Vicente

Sinopse:

(i) faz a instrução militar em Tavira (CISMI) e Elvas (BC 8),

(ii) tira o curso de "ranger" em Lamego;

(iii) é mobilizado para a Guiné;

(iv) unidade mobilizadora: RI 1, Amadora, Oeiras. Companhia: CCÇ 763 ("Nobres na Paz e na
Guerra");

(v) parte para Bissau no T/T Timor, em 11 de fevereiro de 1965, no Cais da Rocha Conde de Óbidos, em Lisboa.;

(vi) chegada a Bissau a 17:

(vii) partida para Cufar, no sul, na região de Tombali, em 2 de março de 1965;

(viii) experiência, inédita, com cães de guerra;

(ix) início da atividade, o primeiro prisioneiro;

(x) primeira grande operação: 15 de maio de 1965: conquista de Cufar Nalu (Op Razia):

(xi) a malta da CCAÇ 763 passa a ser conhecida por "Lassas", alcunha pejorativa dada pelo IN;

(xii) aos quatro meses a CCAÇ 763 é louvada pelo brigadeiro, comandante militar, pelo "ronco" da Op Saturno;

(xiii) chega a Cufar o "periquito" fur mil Reis, que é devidamente praxado;

(xiv) as primeiras minas, as operações Satan, Trovão e Vindima; recordações do avô materno;

(xv) "Vagabundo" passa a ser conhecido por "Mamadu"; primeira baixa mortal dos Lassas, o sold at inf Marinho: um T6 é atingido por fogo IN, na op Retormo, em setembro de 1965;

(xvi) a lavadeira Miriam, fula, uma das mulheres do srgt de milícias, quer fazer "conversa giro" com o "Vagabundo" e ter um filho dele;

(xvii) depois de umas férias (... em Bissau), Mamadu regressa a Cufar e á atividade operacional: tem em Catió, um inesperado encontro com o carismático capelão Monteiro Gama...

(xviii) Op Tesoura: dezembro de 1965, tomada de assalto a tabanca de Cadique, cujas moranças são depois destruídas com granadas incendiárias.

(xix) Cecília Supico Pinto e outras senhoras do MNF visitam Cufar no início do ano de 1966 e Mamadu é internado no HM 241 (Bissau).

(xx) um mês depois, regresso a Cufar, regresso à guerra. Põe o correio em dia. Lê e relê a carta de Maria de Deus [MiMê],  uma paixão escaldante dos tempos de "ranger" em Lamego e por quem estava quase para desertar, antes da data de embarque para a Guiné; a jovem morrerá prematuarmente, em França, aos 24 anos.




Pré-publicação: O livro de Mário Vicente [Mário Fitas], "Do Alentejo à Guiné: putos, gandulos e guerra" (2.ª versão, 2010, 99 pp.) - XXIII Parte: Cap XIV:  Regresso à guerra (1) (pp. 81-83)



XIV Regresso à Guerra [1]


Passado um mês, e aí está Mamadu, embora sem forças e mais magro que um cão, com cinquenta e cinco quilos apenas, na sua bela Cufar para entrar na má vida. Aos poucos, com os caldos de galinha de Miriam, vai recuperando e passados quin­ze dias, é dado como operacional.

Tinha correio para ler para mais de um mês, pois Maria de Deus continuava a escrever todos os dias, mandando poesias e dando sugestões pelas recebidas. Foi tempo de pôr a escrita em dia. Seus pais andavam alarmados pela não recepção de notícias, mas não lhes iria contar o que acontecera. Como o António de Salzedas, com ele tudo estava bem, tinha sido só uma distracção, coincidente com problemas de correios pela época Natalícia.

Mas, no mato há sempre a tentação do retorno a pensa­mentos anteriores. Salta da cama, vai à mala e retira uma carta daquelas que se lêem muitas vezes, e, estendendo-se novamente sobre a cama, relê:


................ 


"2 Fevereiro de 1966

"My love:

Espero encontrar-te completamente restabelecido fisicamente, e que psiquicamente te mantenhas forte.

Meu Bem!

Esperava que a tua fuga em frente se desse em breve mas, de facto, não tão rapidamente. Piamente reconheço, teres absoluta razão.

Seria neste momento ideal a metamorfose da envolvente existência dos nautas desta caravela. Mas é impossível pois, eu não posso metamorfosear-me em Tânia, nem tu em Jorge ou vi­ce-versa.

Somos a peculiar expressão da vontade de alguém supe­rior, que nos exige expiação pecaminosa, na própria existência neste vale de lágrimas. Continuo no Colégio. Há pouco, à saída da missa mati­nal, falei sobre tudo isto com a nossa Comadre. Enquanto não temos a primeira aula, vim para o quarto falar um pouco con­tigo.

Sim, não há dúvida que estás certo. A tua deserção e a concomitante minha menoridade, ir-nos-ia levantar sérios pro­blemas.

Ainda bem que a corrente em que Tânia te envolveu é inexpugnável.
Enquanto orava na missa, ia pensando em nós e cada vez mais confirmo que cometemos e estamos cometendo adultério. Mais grave! Considero incestuosa a nossa ligação. Como tu dizes, é verdade que estamos no fim da picada.

Meu bem, fomos amantes, somos e seremos eternamente amigos, mas mais que tudo isso, é real existir entre nós um rela­cionamento como irmãos.

Eu reconheço que voltaria na minha vulnerável forma de ser, a pecar de novo. Adúltera assumo, novamente adoraria abrir-te a camisa, e repousar a cabeça na almofada do teu pei­to, sentindo o teu coração bater e as tuas mãos em doce "cha­mego" acariciarem a minha cabeça.

É adorável recordar! Fragilizada, choraria de novo no teu peito. Está retida como se neste momento fosse a tua calma e suave voz, depois de me enxugares os olhos com os teus melí­fluos lábios: "MiMê! Como é? Tens o mar nos olhos? São cris­tais de sal as tuas lágrimas!?"

Como foste doce e meigo, meu irmão! Não consigo compreen­der! Como consegues homem para a guerra, transformares-te em doação total?

Meu bem, estás com o pensamento noutro local?

Não! ... Não ... tenho ciúmes de Tânia, assim como sei que não tens ciúmes de Jorge.

Só que ... Pronto! Esqueçamos, meu bem!

A vida pregou-nos esta partida, mas a culpa é totalmente minha, fui eu, reconheço-o perfeitamente, e reafirmo eu!

Pratiquei incesto em espírito! Que Deus me perdoe, por­que tu, meu querido irmão, sempre me tens perdoado. Não for­çaste nada, apenas eu me doei!

Querias ser missionário, não era? Estou portanto em confissão! Segredo!

Brincadeira... não ligues, como poderia um missionário transformar-se em guerreiro? Não é? Mas é dúvida onde ainda não cheguei.

Tenho de terminar por agora. O sino tocou para as aulas. Logo continuo ...

Cá estou de novo. Agora, já noite, posso estar contigo o tempo que quiser.

Levei todo o dia a pensar nas tuas últimas cartas e vou rebatê-las com uma certa dureza. Não penses que são ciúmes, é a pura verdade. Palavra de MiMê!

Meu querido, se Tânia gostasse de ti, meu tonto, já te tinha dado um sinal! Não sejas ingénuo, meu bem. Perdes a inteligência com Tânia? Agora que temos as coisas bem defini­das e que para mim és mais que tudo um irmão, ouve o que em momento puro de loucura tenho para te dizer:

A única forma de saíres da quadratura em que estamos envolvidos, é fazeres a guerra, meu amigo! A guerra, meu irmão!

Já viste?! ...

Se morreres aí, ainda que no caixão venha um preto em substituição, por tu teres ficado feito em picado, ninguém dá por isso. E será maravilhoso! Ficas um herói. A dor do teu pobre pai será exposta ao mundo Português no Terreiro do Paço rece­bendo a Cruz de Guerra a título póstumo. Terás o nome inscri­to numa rua da tua terra na tua planície. Os teus amigos e con­terrâneos acompanhar-te-ão até à última morada, onde terás honras militares com descargas e tudo. E porque não a própria banda dos excluídos que dizes existir na Escola de Reeducação onde trabalhaste, não te acompanhará, tocando marchas fúne­bres!?

E quem sabe? A própria Tânia se vestirá de preto e esta­rá presente, depositando uma rosa branca sobre a bandeira na­cional que cobrirá o teu féretro?! ... Já viste coisa tão linda, poé­tica e sentimental?

Para ti é que seria o pior, partirias. Se morreres ... apagou-se! Meu irmão e amigo.

Desculpa a morbidez! Mas também hoje não sou eu!

Estou completamente fragilizada, extenuada! Como deves repa­rar pelos borrões na carta, estou a chorar.

Quereria fazê-lo no teu peito. Amei-te, doei-me total e incondicionalmente a ti, ho­mem transformado em ídolo.

ln this moment, I need you, my friend, my brother. Forever yours,

MiMê! 
Finalmente Maria de Deus terá compreendido!

Embora preocupado com a forma louca como escreveu tudo isto, Mamadu não teve dúvidas em que continuariam bons amigos. MiMê, quem seria Mamadu para não te perdoar, ou para te jogar a primeira pedra? São reconhecidas as tentativas de fuga às encruzilhadas tecidas, na teia da vida. Mas um ser superior traçou estes percursos. Mesmo descalços, coração sangrando, percorram-se esses destinados caminhos. O odor do corpo de Mimê, voltou como loucura às narinas do furriel. 

Regredindo, voltou aos momentos de volúpia e de total entrega entre dois seres na alvorada da vida, fez um esforço de negação, e o homem guerra, sentiu a rala barba orvalhada, por pérolas saindo dos olhos e o coração doeu. Mamadu reflectiu e teve reconhecimento perante a dádiva de tantas outras, mulheres grandes quase crianças, da obra que fizeram levando o seu alento junto daqueles jovens, homens fabricados à força e perdendo os melhores anos da sua juventude, vivendo nas mais miseráveis e terríveis situações. 

Não!... Não haverá palavras para agradecer a todas elas aquilo que levaram junto do soldado Português.

(Continua)
________________


(...) Tânia, comigo irão sempre a tua franzina figura e teus negros olhos cintilantes. A tua negação ficará eternamente cica­triz aberta, dentro do peito do cigano errático em que me trans­formei. O resto será aventura. Olhou para os amigos e lembrou-se das palavras de Niotetos: nunca mais seria a mesma pessoa. Um abraço a todos e até ao meu regresso. Esperem pelo Vagabundo, gritou, sem nenhum som lhe sair da garganta. (...)

(**) Vd. poste de 8 de maio de 2016 > Guiné 63/74 - P16063: Pré-publicação: O livro de Mário Vicente [Mário Fitas], "Do Alentejo à Guiné: putos, gandulos e guerra" (2.ª versão, 2010, 99 pp.) - IX Parte: VI - Por Terras de Portugal: (iii) Lamego, Oeiras...

(...) Os esgotos da cidade [de Lamego] tomam-se caminhos conhecidos pela matula, em noites de percursos fantasmas, com petardos de trotil pelo meio. Aqui existe outra mulher especial na vida do ranger que consegue incutir força para a resistência. Apesar dos seus dezoito anos, Maria de Deus explica ao jovem militar a razão das coisas, mas não consegue influenciá-lo a fugir das terras para Norte. No entanto aqui começou uma louca doação. Ao aquartelamento de Cufar na Guiné chegarão, mais tarde, montes de cartas e aerogra­mas, trocar-se-ão poemas, falar-se-á da vida, da guerra e da mor­te. Haveria que fazer qualquer coisa!... A jovem incute no militar a aventura da fuga para França durante as férias. O militar prepara-se para a loucura, mas… há os velhotes e, nas terras para os lados do Norte, Tânia essa estranha força mais forte que o vento, não deixa voar o pensamento acorrentado de Vagabundo. Tão forte na guerra e tão frágil pela imagem de uma mulher que nunca será sua!... Uma mulher, que possivelmente até a sua existência já desconhece.  (...) 


(...) – Furiel!... tu é Mamadu, home balente, bó na bai na mato e cá tem medo, Miriam gosta de furiel. Eu sabo tu é branco, a mim preto! Miriam quer fazer cumbersa giro com furiel Mamadu! (...)

Guiné 61/74 - P17604: Blogpoesia (520): Não é possível conservar o tempo (Juvenal Amado, ex-1.º Cabo Condutor Auto)

Recruta no CICA 4. Foto: © Juvenal Amado


1. Em mensagem de 17 de Julho de 2017, o nosso camarada Juvenal Amado (ex-1.º Cabo Condutor Auto Rodas da CCS/BCAÇ 3872, Galomaro, 1971/74) enviou-nos um poema de sua autoria.


TEMPO

Não é possível conservá-lo,
O Tempo escorre líquido,
Corre entre nós, célere.
Hoje é espesso, ontem vibrante.
A luz filtra-se na rocha escorregadia,
Trespassa-me o peito.
Sangro húmido viscoso e quente,
Os olhos afogam-se nos rios e mar,
Aspiro a brisa que nos transporta,
Nós que navegámos contra o vento,
Escorregamos no esquecimento.
Falta-nos sempre algo mais além,
O que nos vale
é o conforto de um trago amargo.
O álcool queima-nos a garganta,
Entorpece-nos e bebemos aos idos.
Na neblina julgo ver vultos,
Fugazmente vislumbro algo indefinido,
Vejo jovens enlaçados que flutuam,
Não sabem ainda que a juventude
é um momento fugaz.
É uma pétala que se solta,
Que se esmaga entre os dedos
e solta a fragância.
Esse é o aroma do tempo que passa,
e os cemitérios são os nossos fieis depositários

Juvenal Amado
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Nota do editor

Último poste da série de 16 de julho de 2017 > Guiné 61/74 - P17587: Blogpoesia (519): "A gaivota sozinha..."; "No bar do Reichelt..." e "Adoração ao sol...", poemas de J.L. Mendes Gomes, ex-Alf Mil da CCAÇ 728

Guiné 61/74 - P17603: "Resumo do que era a Guiné Portuguesa há vinte anos e o que é já hoje", da autoria do 2.º Sargento Ref António dos Anjos, Tipografia Académica, Bragança, 1937 (7): Págs. 61 a 69 (Alberto Nascimento, ex-Soldado Condutor Auto)



1. Continuação da publicação do livro "Resumo do que era a Guiné Portuguesa há vinte anos e o que é hoje", da autoria do 2.º Sargento António dos Anjos, 1937, Tipografia Académica, Bragança, enviado ao Blogue pelo nosso camarada Alberto Nascimento (ex-Soldado Condutor Auto da CCAÇ 84 (Bambadinca, 1961/63).


(Continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 17 de julho de 2017 > Guiné 61/74 - P17590: "Resumo do que era a Guiné Portuguesa há vinte anos e o que é já hoje", da autoria do 2.º Sargento Ref António dos Anjos, Tipografia Académica, Bragança, 1937 (6): Págs. 52 a 60 (Alberto Nascimento, ex-Soldado Condutor Auto)

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Guiné 61/74 - P17602: Meu pai, meu velho, meu camarada (58): Ilha de São Vicente, Lazareto - Parte I [álbum fotográfico de Luís Henriques (1920-2012), natural da Lourinhã, ex-1º cabo inf, nº 188/41 da 3ª Companhia do 1º Batalhão Expedicionário do Regimento de Infantaria nº 5 [, Caldas da Rainha], que esteve em Cabo Verde, Ilha de São Vicente, entre julho de 1941 e setembro de 1943]




Foto nº 1 > Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Lazareto []?] > Novembro de 1941 >  "Em diligência no paiol [?], eu e 30 colegas. Eu, ao centro"


Foto nº 1 A > Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Llazareto [?] > Novembro de 1941 >  "Em diligência no paiol [?], eu e 30 colegas. Pormenor do grupo: lado esquerdo.



Foto nº 1 B > Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Lazareto [?] > Novembro de 1941 >  "Em diligência no paiol [?], eu e 30 colegas. Pormenor do grupo: centro. Luís Henriques está assinalado com um retângulo a amarelo.




Foto nº 1 C > Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Lazareto [?] > Novembro de 1941 >  "Em diligência no paiol, eu e 30 colegas. Pormenor do grupo: lado direito.




Foto nº 2 > Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Lazareto [?] > Novembro de 1941 >  "Duas secções em diligência no paiol".


Foto nº 2 A > Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Lazareto [?] > Novembro de 1941 >  "Duas secções em diligência no paiol". Pormenor: parte do lado esquerdo. O primeiro militar da ponta esquerda deveria ser um graduado (furriel ou sargento)



Foto nº 2 B > Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Mindelo [?] > Novembro de 1941 >  "Duas secções em diligência no paiol". Pormenor: parte central. Luís Henriques é o segundo a contar da direita para a esquerda.



  Foto nº 2 C > Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Mindelo [?] > Novembro de 1941 >  "Duas secções em diligência no paiol". Pormenor: parte central. Luís Henriques é o primeiro a contar da esquerda para a direita.

Fotos (e legendas): © Luís Henriques (1920-2012) / Luís Graça (2017). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné.




1. Fotos do álbum de Luís Henriques (1920-2012), ex-1º Cabo nº 188/41 da 3ª Companhia do 1º Batalhão Expedicionário do Regimento de Infantaria nº 5 [, Caldas da Rainha]. Esteve 26 meses em Cabo Verde, no Lazareto, na Ilha de São Vicente, entre julho de 1941 e setembro de 43, em missão de soberania; este e outros batalhões (do RI 7, RI 15 e RI 2) , num total de mais de 3300 homens, foram entretanto integrados mais tarde no RI 23]. (*)

[Foto à direita, Luís Henriques > 19 de agosto de 1942 > "No dia em que fiz 22 anos, em S. Vicente, C. Verde. 19/8/1942. Luís Henriques ".]


Estas e outras fotos do álbum de Cabo Verde, de Luís Henriques, foram disponibilizadas ao João B. Serra que está escrever a biografia do capitão SGE e escritor Manuel Ferreira (1917-1992) [e a montar, em Caldas da Rainha, uma exposição comemorativa do 1º centenário do seu nascimento,  a inaugurar no dia 22 de julho de 2017, seguindo depois em meados de setembro para Leiria, terra natal do escritor] (**).

Manuel Ferreira também foi expedicionário, em São Vicente na mesma altura, ou seja durante a II Guerra Mundial, com o posto de furriel miliciano, embora pertencesse a outra unidade mobilizadora, o RI 7 (Leiria) (o respetivo batalhão estava aquartelado em Chão de Alecrim).

Outros camaradas nossos, cujos pais estiveram em Cabo Verde (casos do Hélder Sousa, Augusto Silva Santos e Luís Dias), também já disponibilizaram as fotos dos seus álbuns, para esta nobre missão que é, para além da comemoração da vida e obra de Manuel Ferreira, homenagear os valorosos portugueses e cabo-verdianos desta época.

O RI 5 estava aquartelado no Lazareto, a oeste da cidade do Mindelo.
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Notas do editor:

(*) Último poste da série > 19 de junho de 2017 > Guiné 61/74 - P17486: Meu pai, meu velho, meu camarada (57): um roteiro da cidade do Mindelo: parte II [álbum fotográfico de Luís Henriques (1920-2012), natural da Lourinhã, ex-1º cabo inf, nº 188/41 da 3ª Companhia do 1º Batalhão Expedicionário do Regimento de Infantaria nº 5 [, Caldas da Rainha], que esteve em Cabo Verde, Ilha de São Vicente, entre julho de 1941 e setembro de 1943]

(**) Vd. poste de 12 de julho de 2017 > Guiné 61/74 - P17571: Agenda cultural (572): Exposição "Manuel Ferreira, capitão de longo curso", Museu Malhoa, Caldas da Rainha. Convite para a inauguração, no próximo dia 22 de julho, sábado, às 15h00 (João B. Serra, comissário)

Guiné 61/74 - P17601: Convívios (818): A lista final dos 50 'magníficos' inscritos para o 32º almoço-convívio da Tabanca da Linha, Carcavelos, dia 20, 5ª feira (Manuel Resende)


27.º Convívio da Magnífica Tabanca da Linha > Cascais > Carcavelos > Junqueiro > Hotel Riviera > 22 de setembro de 2016 > Quatro dos 'magníficos':  da esquerda para a direita,  Juvenal Amado, Jorge Rosales, Armando Pires e  Mário Fitas.

Foto:  © Manuel Resende (2016). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]





A lista final dos 50 "magníficos" inscritos para o 32º encontro da Tabanca da Linha.  






Infogravura: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2017)



1. O régulo, o "magnífico-mor", o histórico n º 1,  o "founding father", é o veterano Jorge Rosales (Cascais), tendo como adjunto (oficial de operações, secretário, "public relations",  tesoureiro, fotojornalista...) o Manuel Resende (o histórico nº 4, que mora em São Domingos de Rana, Cascais)... 

Outros séniores vão estar presentes como é o caso do Manuel Joaquim (Agualva-Cacém, Sintra, nº 2), o Armando Pires (Miraflores, Oeiras, nº 3), o Zé Carioca (Cascais, nº 5),  o Mário Fitas (Estoril, Cascais, nº 6). E até o editor do nosso blogue, Luís Graça (a quem, por deferência, atribuiram o nº 9)... Já não aparecia há muitas luas...

De modo algum "desalinhados", mas oriundos da "margem esquerda" do Tejo,  saudamos a presença do Augusto Silva Santos (Almada, nº 25) e o Hélder Sousa (Setúbal, nº 16)... De qualquer modo, tanto Almada como Setúbal fazem parte da Área Metropolitana de Lisboa.

O resto da malta é da Grande Lisboa, propriamenmte dita ou seja,, de alguns dos seguintes concelhos de:

Amadora
Cascais
Lisboa
Loures
Mafra
Odivelas
Oeiras
Sintra
Vila Franca de Xira.

O destaque vai para os camaradas que moram na "linha de Cascais" [, expressão que designa a ligação ferroviária entre Cais do Sodré (Lisboa) e Cascais, com uma extensão de 25, 450 km: interliga 3 concelhos: Lisboa, Oeiras e Cascais] ... Mas não esquecer também a " forte representação" do concelho de Sintra (13, quantos os de Cascais, que jogam em casa)... Por "equipas" ganha a da Linha de Cascais (Oeiras e Cascais) à da linha de Sintra (Amadora e Sintra) por 22-16...Neste caso, os de Lisboa (3) não jogam, porque tanto podem pertencer a uma ou a outra.

O Juvenal Amado. que também montou definitivamente o bivaque na Reboleira, Amadora, é já um assíduo da Tabanca da Linha, com o nº 32, mas morava até há coisa de um ano, em Fátima, concelho de Ourém... Fora da Grande Lisboa e da Área Metropolitana de Lisboa, vem o António Alves Alves, que é do Carregado (concelho de Alenquer).

O último membro da Tabanca da Linha passa a ser o veteraníssimo Jorge Ferreira (Caxias, Oeiras, nº 167).

Quanto à origem da Magnífica Tabanca da Linha, ela remonta a meados 2009 quando o Jorge Rosales o e José Manuel Matos Dinis se reencontraram, ao fim de 40 anosm na Quinta do Paul, Ortigosa, mais exatamente em 20 de junho de 2009, por ocasião do IV Encontro Nacional da Tabanca Grande. (**)

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Notas do editor:

(*) Último poste da série > 13 de julho de 2017 >  Guiné 61/74 - P17578: Convívios (817): Almoço dos ex-militares da CART 564, dia 15 de Julho de 2017 em Oliveira do Hospital (Júlio Santos, ex-1.º Cabo Escriturário)


(**) Vd. poste de 7 de maio de 2016 > Guiné 63/74 - P16060: Na festa dos 12 anos, "manga de tempo", do nosso blogue (9): De quantas tabancas é feita a Tabanca Grande ?... Relembrando o feliz acaso do reencontro, 40 anos depois, do Zé Manel Matos Dinis com "o senhor Rosales", na Quinta do Paul, Ortigosa, em 20 de junho de 2009, por ocasião do nosso IV Encontro Nacional, e que esteve na origem da criação da Magnífica Tabanca da Linha...

(...) Foi talvez nesse dia, já longínquo, de 20 de junho de 2009, num sábado, tórrido, que terá nascido a Tabanca da Linha... Pois que fique, para memória futura, e como documento para a nossa "pequeno história",  este naco de prosa do Zé Dinis... Fomos recuperar este texto, servindo ao mesmo tempo para abrilhantar os festejos dos 12 anos da Tabanca Grande (...) , que é a mãe de todas as tabancas... Curiosamente temos dificuldade em encontrar uma foto com eles dois juntos, o régulo da Tabanca da Linha, o 'comandante' Jorge Rosales e o seu 'adjunto' ou 'secretário' Zé Manel Matos Dinis... Pode ser que o fotógrafo oficioso da Tabanca da Linha, o Manuel Resende, descubra uma, nos seus arquivos...

Recorde-se que o José Manuel Matos Dinis foi fur mil at inf, CCAÇ 2679 (Bajocunda, 1970/71). E que o Jorge Rosales Jorge Rosales, membro da nossa Tabanca Grande, desde junho de 2009, foi alf mil da 1ª CCaç Indígena (Porto Gole1964/66). (...)

Guiné 61/74 - P17600: Os nossos seres, saberes e lazeres (222): De Lisboa para Lovaina, daqui para Valeta: À procura do grão-mestre António Manoel de Vilhena (1) (Mário Beja Santos)



1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70) com data de 12 de Abril de 2017:
Queridos amigos,
Tratava-se de um sonho antigo, visitar Malta, mesmo no coração do Mediterrânio, a 90 quilómetros da Sicília, o mais pequeno dos Estados da União Europeia, com uma história fabulosa, uma cultura marcada pela presença de diferentes dominadores, caso dos árabes, que ali permaneceram mais de três séculos, de Aragão, do Reino das Duas Sicílias, foi ameaçada pelo Império Otomano, Ordem de Malta, os cavaleiros hospitalários ali fundaram fortalezas nas ilhas de Malta e Gozo que têm uma imponência esmagadora.
Por ali passou o Napoleão Bonaparte que extinguiu a Ordem de Malta, seguiram-se os britânicos até que na década de 1960 veio a independência.
Os portugueses são recordados, logo o Grão-Mestre da Ordem António Manoel de Vilhena, uma lenda maltesa e também o Marquês de Niza que se comportou heroicamente com os seus marinheiros no cerco de Napoleão, em 1798.
Vale a pena recordar.

Um abraço do
Mário


De Lisboa para Lovaina, daqui para Valeta:
À procura do grão-mestre António Manoel de Vilhena (1)

Beja Santos

Depois de muito procurar um bom low-cost para Valeta, a capital da República de Malta, o viandante descobre que há um bom, bonito e barato, por aproximadamente 140 euros, taxas incluídas, sai-se da Portela até Zaventem, seis horas depois prossegue-se para Valeta e no regresso pode-se fazer uma escala demorada em Bruxelas. Era o que convinha, e conveio. Começava assim uma digressão primaveril, cedo se chegou a Zaventem, optou-se por uma nova viagem até Lovaina, a conceituada cidade universitária dentro da Flandres, chega-se rapidamente de comboio, estadia para revisitar os belos campos iluminados pelo sol primaveril. E assim se chegou a uma cidade que tem a particularidade de ter um monumento dedicado aos seus mortos na guerra, um memorial, logo à porta da gare ferroviária. Atenda-se ao belo espigão que sobe dentro de um céu azul puríssimo, e veja-se um pormenor escultórico, como é sabido a câmara do viandante não dá para arrojadas imagens. Não admira o respeito pela memória que os belgas têm pelas duas invasões alemãs, mortíferas e altamente destruidoras, como se exemplificará com a Biblioteca de Lovaina.



A caminho da biblioteca da Universidade de Lovaina depara-se este monumento dedicado a Justus Lipsius ou à portuguesa Justo Lipsio, um dos mais conceituados humanistas flamengos, o seu nome aparece hoje num dos edifícios monumentais da União Europeia.


Em Agosto de 1914, a Biblioteca de Lovaina, conhecida no mundo inteiro, foi incendiada pelo exército alemão, perderam-se 300 mil livros. Houve doadores norte-americanos e outros que contribuíram para a construção do novo edifício. O que estamos a ver é um empréstimo do estilo arquitetural do Renascimento dos Países Baixos. Em Maio de 1940, os alemães voltaram a destruir a biblioteca, perderam-se 900 mil volumes. Em 1951, a biblioteca abriu novamente aos leitores. Em 1968, novo drama, com a cisão entre a Flandres e a Valónia, criou-se a universidade francófona de Lovaina-a-Nova, repartiu-se o património.




A Igreja de S. Pedro é um belíssimo espécime do gótico brabanção, elegante na disposição do espaço, belas colunas, um teto sóbrio numa boa equação de cumprimento e altura, o templo estava em obras, sobretudo no altar e na zona da abside, o viandante centrou-se numa escultura fabulosa, num pormenor do teto e noutro do luxuriante púlpito, trata-se de um conjunto escultórico de incalculável valor.
É preciso regressar ao aeroporto.
Chega-se a Valeta ao fim do dia, encontrou-se acolhimento no bairro de Paula, seguramente alusivo a S. Paulo, que por aqui andou, segundo o Ato dos Apóstolos, três meses, fruto de um naufrágio, daqui seguiu para Roma, onde foi martirizado. Na manhã seguinte, começou a descoberta de Valeta, património mundial da humanidade. Onde a aviação alemã destruiu uma casa de cultura está hoje o edifício do Parlamento de Malta, obra do arquiteto Renzo Piano. É um deslumbramento.


(Continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 12 de julho de 2017 > Guiné 61/74 - P17570: Os nossos seres, saberes e lazeres (221): Poço Corga, Mosteiro e o meu jardim perfumado (Mário Beja Santos)